DO BOICOTE À PARTILHA. NA BABILÔNIA. RATEIO

O que nós alimentamos quando nos alimentamos?

Você sabe onde são produzidos os alimentos que compra no mercado? Qual trajeto o alimento percorre antes de chegar nas prateleiras do supermercado? Quais e quantas pessoas estão envolvidas na produção da alface que você come na sua salada? É claro que o consumo, principalmente o dos alimentos, é inevitável, mas pode ser exercido de diversas formas. No entanto, por ser uma ação sempre presente no nosso dia-a-dia tomamos o ato de consumir como algo passivo e a tendência é a de realizarmos de forma alienada, sem nos preocuparmos de onde vem e como foi produzido o que consumimos, ou que impacto um alimento pode exercer em nós.
O ato da compra é a etapa final de qualquer processo de produção e, sobre este mesmo processo, importante papel regulador representa a oferta para toda e qualquer demanda no mercado em geral. Nós, consumidores, devemos ter consciência de que fazemos parte dessa cadeia ao adquirirmos algo de que necessitamos, seja um bem material, seja o alimento a consumir. Ao perdermos a noção de tudo o que envolve este ciclo, nós nos alienamos, uma vez que nos limitamos apenas ao ato da compra, sem o menor questionamento. Assim, nosso olhar se estreita, limitamo-nos às prateleiras das lojas e supermercados, de modo a atender somente as necessidades imediatas.
Por outro lado, o mercado está estruturado quase exclusivamente para esse tipo de consumo, isto é, ao consumo alienado daquele que se guia por impulsos e age de modo inconsciente. Exatamente por isto, há um pesado investimento com vistas à manutenção e até a intensificação deste comportamento perverso gerado pelo interesse e pelo lucro.
O sistema capitalista conta com setores destinados a estimular tal comportamento no consumidor, como o de propaganda e marketing. Pensando a forma mais atrativa de vender cada produto ou alimento, este setor obtém por seus serviços um retorno financeiro bem maior do que o de quem o produziu um bem de consumo ou de quem cultivou um alimento. Observamos, portanto, que essas relações de mercado não são equilibradas, pois, frequentemente oneram mais o produtor primário que outros setores da cadeia. Um agricultor, por exemplo, que passou meses produzindo determinado alimento se vê obrigado a vender sua produção por menos da metade do cobrado do consumidor final.
A lógica da produtividade cega, aliada à propaganda que empurra e visa vender a qualquer custo e de maneira crescente, insere químicos e diminui a qualidade dos produtos. Exemplo claro está nos alimentos. Atualmente se utilizam diversos produtos químicos para aumentar o crescimento e diminuir o tempo natural de maturação dos alimentos. Qual é a vitalidade desse alimento? Que prejuízos trazem para a saúde? Ingerimos esses tóxicos sem nem mesmo ter informações nos rótulos e sem saber os males que causam à saúde e ao ambiente. Se você compra, por exemplo, produtos de uma empresa que utiliza trabalho escravo você está financiando estas práticas. O mesmo ao comprar alimentos de produtores que utilizam químicos que degradam o meio ambiente.
Estar na posição de consumidor é estar na ponta final do processo. Neste cenário, parece que quem compra tem pouco poder de intervenção e muitas opções de ofertas para escolher. Será que isso é fato? Como podemos atuar nessa realidade?
Nos organizando, consumindo de maneira responsável, consciente e conjunta podemos reverter essa lógica e ser verdadeiramente ATIVOS ao consumir, deixando de ficar passivos diante das “ofertas” do mercado. Nós podemos e temos muitos motivos para fazê-lo!
O consumidor consciente e ativo é aquele que se vê como investidor de formas alternativas de produção e comercialização, direcionando seus recursos financeiros a produções ecologicamente sustentáveis e relações economicamente justas. Incentivando com o ato da compra iniciativas com menor impacto ao ambiente, socialmente mais justas, buscando diminuir as desigualdades sociais; o que implica em saber como que esse dinheiro, após a compra irá voltar aos que participaram desse processo. Ao tomar conhecimento do processo que envolve os produtos que consome, esse ato passa a ser carregado de grande significado, uma vez que nos sentirmos responsáveis por um ato maior que a simples compra.
É preciso considerar ainda os atores que atuam na cadeia produtiva. Na sociedade moderna, e principalmente nos grandes centros urbanos, a facilidade de acesso a todos os tipos de produtos (nos centros comerciais, supermercados, quitandas) acabou por afastar e alienar o consumidor do processo produtivo; como se os produtos, as verduras e frutas estivessem sempre lá, nas prateleiras. Ignoramos a “história das coisas” que consumimos.
Os chamados “grandes atravessadores” atuam concentrando renda, pagando muito pouco para
os produtores, incentivando e garantindo o consumismo massificado. Além disso, vendem os produtos das grandes transnacionais que degradam o ambiente, levam os recursos para longe dos bairros e comunidades, exploram o trabalho e se unem a organismos internacionais de regulação econômica, onde atuam de modo a manter e fortalecer esse sistema.
Para se fazer escolhas conscientes sobre o que consumir ou não, são necessárias informações sobre estes produtos, o que aparece como um desafio ainda. Existem diversos atores que atuam no âmbito do consumo onde podemos conseguir informações sobre os produtos e as empresas. Também podemos participar de algum grupo ou rede de compras conjuntas, onde são desenvolvidos conhecimentos e práticas que permitem um consumo que, além de responsável, também se torna cada vez mais econômico para o consumidor e mais humano, uma vez que aproxima consumidores e produtores.
Ao investir em produções ecológicas, solidárias e locais, fortalecemos a economia regional, garantindo seu desenvolvimento ao mesmo tempo em que praticamos relações econômicas mais justas e preservamos o ambiente que nos rodeia e provê os recursos necessários à vida.
Neste contexto, se faz cada vez mais urgente uma politização do consumo, onde o consumidor se enxergue como agente político e ativo que através do seu consumo que determina e transforma a sociedade. Que projeto de sociedade e de vida você, enquanto consumidor quer alimentar quando você se alimenta?

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